Vamos falar sobre suicídio

“O deserto que atravessei,
ninguém me viu passar”
(Zelia Ducan)

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O suicídio é todo ato pelo qual um indivíduo causa lesão a si mesmo, a partir de pensamentos de autodestruição, passando por ameaças, gestos, tentativas de suicídio e, finalmente suicídio (BOTEGA, 2002).

Geralmente, o paciente com risco de suicídio apresenta um quadro de depressão e as causas fundamentais deste comportamento devem ser procuradas no contexto psicobiológico do indivíduo. Muitas vezes, a tentativa de suicídio é um pedido indireto de ajuda (KASTENBAUM & AISENBERG, 1983).

De acordo com Durkheim (1982) o suicídio trata-se de um fenômeno social. Segundo ele, é a forma das coletividades que determina as atitudes individuais, ou seja, há forças sociais que levam o sujeito a não desejar mais viver.

Já para a psicanálise, o suicídio seria uma forma de dar fim a conflitos psíquicos e ao mal estar e à dor de existir. Esta dor está associada à pulsão de morte, conceito abordado como uma tendência para a morte, presente em todo ser humano. O indivíduo experimenta a dor e a tristeza pela perda do objeto idealizado (FREUD, 1920).

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Os serviços de urgência hospitalares recebem muitos pacientes por tentativa de suicídio, no entanto, a maioria das pessoas que tentam suicídio não buscam o serviço médico hospitalar por vários motivos: a dificuldade de acesso, sentimentos de vergonha, medo da rejeição e o preconceito existente na equipe de saúde em relação à pacientes que tentam suicídio (BOTEGA E COLABORADORES, 2009).

O primeiro contato com o paciente que tentou suicídio é o setor de emergência do hospital geral, pois contém toda a estrutura técnica e equipe preparada para atender pessoas com risco de morte. É comum que a equipe apresente dificuldades na assistência adequada a pacientes que tentam o suicídio, sendo que este ainda é alvo de muitos preconceitos, portanto, nem sempre conseguem realizar o acolhimento necessário ao paciente e à sua família, tornando-se um paciente indesejado no pronto socorro (GONDIM, 2015).

É comum que o profissional faça seu julgamento baseado em seus próprios valores, podendo reagir com indiferença, preconceito, impaciência, pena, ironia, etc. Questões que refletem a própria dificuldade do profissional de lidar com seus conflitos internos ou mesmo por deficiência na formação profissional (CARVALHO, 2008).

Neste momento, o psicólogo atuará como agente transformador, propiciando acolhimento, escuta qualificada, suporte psicológico, orientações e o devido encaminhamento a um serviço de saúde mental. Sua atuação também será com a equipe, auxiliando na compreensão do estado psicológico do paciente e nas relações entre a família e a equipe.

O primeiro atendimento ao paciente que tentou suicídio será da equipe médica, que realizará todos os procedimentos necessários para a estabilização do paciente. Neste momento, o psicólogo pode acolher a família, escutando suas angústias e coletando informações acerca do paciente. Após todos os riscos serem eliminados, o psicólogo atuará junto ao paciente, acolhendo, escutando, compreendendo seu sofrimento e prestando assistência integral. Esta assistência será realizada durante toda a internação até sua alta (BERTOLOTE, MELLO-SANTOS & BOTEGA, 2010).

De acordo com Kehl (2009), o suicídio pode representar um conflito da realidade psíquica e das perdas afetivas. O profissional da saúde precisa estar preparado para escutar as diferentes motivações que levam o sujeito a desejar morrer. Por isso, o papel do psicólogo é fundamental no atendimento a este paciente.

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É preciso cuidar desse paciente em sua integralidade, compreendendo-o como um sujeito histórico, social e político, articulado ao seu contexto familiar, ao meio ambiente e à sociedade no qual se insere, identificando suas motivações reais ao desejo de morrer (MATTOS, 2004).

Então, a integralidade do cuidado deve ser realizada por toda a equipe de saúde, sendo fundamental refletir acerca da sua vulnerabilidade. Inclusive, no período de hospitalização, a equipe deve apoiar o paciente no sentido de conquistar maior autonomia e capacidade na reconstrução e ressignificação da sua própria vida (CECÍLIO, 2001).

A alta hospitalar não deve ser simplesmente um ato burocrático. O momento da alta deve ser realizado de forma cuidadosa e o paciente e seus familiares devem ser orientados a dar continuidade ao tratamento (que não finaliza com a alta).

A equipe deve ter competência técnica para avaliar as condições físicas, psíquicas, sociais e identificar os recursos de saúde, que colaborem para a melhora deste paciente. Assim como também oferecer suporte a seus familiares que encontram-se assustados e preocupados com o paciente. Neste sentido, é fundamental que estes profissionais estejam capacitados para prestar assistência a esta demanda nos serviços de saúde (CECÍLIO, 2001).

Para isto, a própria instituição hospitalar, junto ao psicólogo, poderá estabelecer programas de educação permanente às equipes de saúde para o atendimento em saúde mental. Além de propiciar um espaço de expressão dos sentimentos vivenciados pela equipe e gerenciar o estresse vivenciado ao atender um paciente que comete suicídio (BURIOLA et al, 2011).

O contato com o paciente e com a família deve ser de cuidado, apoio, zelo e esclarecimentos. Inclusive, a família como principal apoio do paciente, deve ser orientada quanto à prevenção do suicídio. Barrero (2008) traz algumas orientações essenciais como: não deixar o paciente sozinho, ser o principal suporte emocional do paciente, colaborar na vigilância e em casos que o paciente já realizou a tentativa, estar orientado sobre o serviço especializado mais próximo para o atendimento de urgência.

Para prevenir ou minimizar a probabilidade de futuras tentativas de suicídio, os hospitais devem colocar em prática a capacitação profissional continuada relacionada ao cuidado ao paciente com risco de suicídio. A avaliação adequada poderá contribuir significativamente para a redução de tentativas futuras (BALLARD et al, 2008).

Neste sentido, a educação continuada deve estar presente não somente nos hospitais, mas também nos processos educativos formais como residências, especializações e capacitações (BONFIM, BASTOS, GÓIS, & TÓFOLI, 2013).

 

 

Referências:

BALLARD, E. D, PÃO, M., HOROWITZ, L., LEE, L. M., HENDERSON, D. K., & ROSENSTEIN, D. L. (2008). Aftermath of suicide in the hospital: Institutional response. Psychosomatics, 49.
BARRERO, S. A. P. (2008). Preventing suicide: A resource for the family. Annals of General Psychiatry, 7(1). Acessado em http://www.annals-general-psychiatry.com/content/7/1/1.
BERTOLOTE, J. M., MELLO-SANTOS, C., BOTEGA, N. J. (2010). Detecção do risco de suicídio nos serviços de emergência psiquiátrica. Revista. Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v. 32.
BONFIM, I. G., BASTOS, E. N. E., GÓIS, C. W. L., & TÓFOLI, L. F. (2013). Interface, 17(45), 287-300. Brasil. (1977). Conceitos e definições em saúde. Portaria n. 30 – Bsb, de 11 de fevereiro de 1977. Ministério da Saúde. Brasília.
BOTEGA, N. J. (2002). Prática Psiquiátrica no Hospital Geral: interconsulta e emergência. Porto Alegre: Artmed.
BOTEGA, N. J. et al. (2009). Prevalências de ideação, plano e tentativa de suicídio: um inquérito de base populacional em Campinas, São Paulo, Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. 12.
BURIOLA, A. A., ARNAUTS, I., DECESARO, M. N., Oliveira, M. L. F., & MARCON, S. S. (2011). Assistência de enfermagem à família de indivíduos que tentaram o suicídio. Escola Anna Nery Revista de Enfermagem, 15(4).
CARVALHO, S. C. (2008). O suicida subverte a ordem médica – quais os efeitos dessa subversão na relação médico-paciente? 25º Congresso Mundial de Suicídio, Montevideo, Ur.
CECÍLIO, L. C. O. (2001). As necessidades de saúde como conceito estruturante na luta pela integridade e eqüidade na atenção em saúde. In R. Pinheiro & R. A Mattos (Orgs.), Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO.
DURKHEIM, E. (1982). O Suicídio – estudo sociológico. Rio de Janeiro: Zahar.
FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. In: Edições Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, 1972.
GONDIM, D. S. (2015). A intervenção da Psicologia: tentativas de suicídio e urgência hospitalar. Revista Científica da FMC. Vol. 10, nº 2.
KASTENBAUM, R. & AISENBERG, R. (1983). Psicologia da morte. São Paulo: Pioneira.
KEHL, M. R. (2009). O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.
MATTOS, R. A. (2004). A integralidade na prática (ou sobre a prática da integralidade). Cadernos de Saúde Pública, 20(5).

 

[Fotos: Google Images]

 

Suzanne Leal
@amplapsicologia
Fb.com/amplapsicologia
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