Luto complicado ou patológico

“O medo de morrer é essencial para a nossa vida, é por causa dele que nos encontramos vivos até hoje”
D’ASSUMPÇÃO

A morte faz parte da vida. Apesar disso, causa medo, inquietação, angústia, temor, etc. Trata-se de uma experiência absolutamente solitária. Só conhecemos a morte no outro e não há como vivenciá-la a não ser com nossa própria morte.

Apesar da solidão que permeia a morte, não devemos estar desamparados, e sim, amparados por aqueles que nos são queridos. Ter uma boa morte faz parte da dignidade do ser humano (FRANCO, 2002).

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Estamos sujeitos a vivenciar várias situações de perdas e não somente em casos de morte. Frustrações, fracassos, perda de algo importante (seja material ou sentimental), dentre outros, também podem nos causar dor e sofrimento. Alguns autores afirmam que o medo da morte na verdade é o medo da vida mal vivida. Medo de não nos arriscamos, da dor e do sofrimento (FRANCO, 2008).

Kübler-Ross (2000) analisou alguns estágios relacionados as perdas:

– Negação, quando o paciente reage negando o fato, não acreditando no primeiro momento, trata-se de uma deseja momentânea pelo fato de entrarmos em contato com a nossa própria finitude;

– Raiva, o paciente questiona porquê está doente;

– Barganha, trata-se de uma negociação feita com alguém, com algo ou com Deus;

– Depressão, ocasionado por mudanças de humor, choro fácil, desânimo e apatia;

– Aceitação, quando o paciente consegue elaborar e aceitar sua condição, ficando mais introspectivo.

O Luto trata-se de um processo pessoal e individual para reorganizar e readaptar a vida após a perda de alguém ou algo muito valorizado, de reaprender a reviver no mundo, irreversivelmente modificado sem ele/a (BOWLBY, 2006).

Nos processos de perda, a aceitação da perda do objeto, seja ele humano ou material, acontece somente pelo verdadeiro conhecimento da realidade e a interiorização da referida perda. A partir do momento que a pessoa internalizar o luto e viver esse sentimento terá dado início a superação da perda do objeto (PARKES, 2009).

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A não aceitação do processo de luto, pode ocorrer por um longo período de tempo, acarretando o surgimento de algumas patologias, como a “melancolia” (refere-se a depressão, um processo de tristeza profunda), podendo também chegar ao nível da doença física. Quando não ocorre o luto normal (não promove nenhum tipo de trauma ou consequências que possam afetar a integridade física e psicológica da pessoa), pode-se ocorrer o luto patológico (sofrimento que pode desencadear violência, colapso físico, entorpecimento, raiva, não aceitar a realidade da morte). Aceitar e internalizar o luto podem ajudar o indivíduo a enfrentar períodos de depressão. Não existe um tempo estabelecido para que isto ocorra, vai depender das características pessoais de cada um, do momento vivenciado e da importância da perda (FONSECA, 2004).

Ainda em relação ao luto patológico, há a presença de sentidos de ambivalência, em que sentimentos de amor e ódio se alternam pela mesma pessoa, com presença de sentimento de culpa está sempre presente. É preciso trabalhar a dor, e reajustar o ambiente, ressaltando que quem deve realizar todo o processo é a própria pessoa. Trabalhar a dor da perda é uma fase muito importante para que não se prolongue o processo de luto (FONSECA, 2004).

Uma questão importante trata-se da inversão de papéis entre o que fica e a pessoa que parte. A pessoa assume posturas e papéis do falecido, como forma de compensar a perda. Em alguns casos, o luto nunca termina, causando um agravamento somático, levando o enlutado a desenvolver doenças graves e uma depressão reativa. Muitos podem trazer à tona sentimentos mal resolvidos relacionados a pessoa perdida, impedindo a elaboração do luto forma satisfatória (KOVÁCS, 2005).

Há casos do luto inconclusivo, que é quando o enlutado não vivencia “visivelmente” a perda, não há a presença do corpo, como por exemplo, pessoas que morrem em uma queda de avião no mar e os corpos não são encontrados. Há também perdas que são socialmente negadas, como por exemplo, uma mulher que decide interromper a gravidez. Trata-se de um luto solitário, não compartilhado  (KOVÁCS, 2005).

“Acho que para recuperar um pouco da sabedoria
de viver seria preciso que nos tornássemos discípulos
e não inimigos da Morte. Mas, para isso, seria preciso
abrir espaços em nossas vidas para ouvir a sua voz”.
(Rubens Alves)

Para finalizar, o enlutado precisa: reconhecer a perda; reagir emocionalmente à separação; recordar o relacionamento, e reexperienciar a pessoa perdida; abandonar velhos apegos e elaboração da perda; reajustar para se mover adaptativamente ao novo sem esquecer o velho; reinvestir. A psicoterapia poderá ajudar o indivíduo a elaborar este processo (FRANCO, 2008).

REFERÊNCIAS

ALVES, R. (1991) A morte como conselheira. In: CARSOLA, R. M. S. (Org.). Da morte: estudos brasileiros. São Paulo: Papirus.
BOWLBY, J. (2006) Formação e Rompimento de Vínculos Afetivos. Tradução Álvaro Cabral. 4º Edição São Paulo: Martins Fontes.
FONSECA, J. P. (2004) Luto Antecipatório. Livro Pleno, Campinas.
FRANCO, M.H.P (2002) Estudos Avançados sobre o Luto. Livro Pleno, Campinas.
FRANCO, M. H. P. (2008) Luto em cuidados paliativos. In: Cuidado paliativo. São Paulo: CREMESP.
KOVÁCS, M. J. (2005) Educação para a morte. Psicologia, Ciência e Profissão, n. 25, v. 3, p. 484-489, 2005.
KUBLER-ROSS, E. (2000) Sobre a morte e o morrer. Trad. P. Menezes. São Paulo: Martins Fontes.
PARKES, C. M. (2009) Amor e Perda – As raízes do luto e suas complicações. São Paulo: Summus.
Suzanne Leal
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@amplapsicologia
Fotos: Google Images

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