Malévola Como Inspiração para a Transformação

Assisti nesse final de semana o segundo filme de Malévola – Dona do Mal, personagem interpretada por Angelina Jolie (magnificamente, diga-se de passagem). Resumo: foi de arrepiar.

Me arrepiei porque Malévola representa todas as mulheres, inclusive eu e você.

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Ela é uma fada poderosa, protetora do reino dos Moors, que também são seres mágicos. O primeiro filme começa falando da Malévola ainda criança, descrevendo ela como uma fada poderosa, sim, mas muito gentil e bondosa. Um dia, a jovem conhece Stefan, um garoto humano que roubara uma joia na terra dos Moors.

Na história, humanos não entendem e não confiam nos seres mágicos e vice e versa, então, imaginem a confusão. Porém, a fada foi gentil com o rapazinho e permitiu que ele retornasse para o seu reino ileso se devolvesse a pedra, e o garoto assim o fez. Mas eles continuaram se encontrando. Stefan e Malévola passavam horas conhecendo um ao outro, e sobre o povo de cada um. Eventualmente, eles passaram a confiar um no outro e, assim, foi nascendo uma paixão que Stefan chama de “amor verdadeiro”.

Porém, com o passar do tempo, Stefan se aproximava cada vez mais da sua ambição de se tornar rei e, consequentemente, se afastava de Malévola na mesma medida, até que os encontros cessaram, deixando a fada magoada e confusa, sem entender a ganância humana.

Um dia, o rei dos humanos, Henry, decide invadir os Moors e enfrenta Malévola, perdendo a batalha e voltando para o castelo com uma ferida mortal e sede de vingança. Em seu leito de morte, ele oferece aos presentes a oportunidade de se tornarem reis com uma condição: matar a fada e vingar sua eventual morte.

Stefan, que estava presente no pronunciamento do rei, prontamente se dirigiu ao reino dos Moors, chamando por Malévola, como fazia na infância. E ela atende. Os dois passam a noite conversando, revivendo o passado que viveram juntos. Ao passar da noite, Stefan oferece à fada um cantil e ela sem duvidar da ação do jovem, bebe, e cai em um sono profundo.

Decidido a se tornar rei, mas incerto sobre matar a fada, talvez por algum resquício do afeto que tinha por ela, Stefan decide fazer algo pior do que a morte: cortar as asas de Malévola, que constituíam a identidade dela, sendo parte de si sobre o qual tinha muito orgulho e apreço.

Me pergunto quantas mulheres já se abriram de corpo e alma para pessoas, especialmente homens, que simplesmente não mereciam sua confiança, como fez Malévola, só para terem sua identidade, seu orgulho, sua liberdade e sua saúde mental, roubados em uma noite quando tudo parecia estar bem (ou várias noites).

Quantas de nós somos tomadas pela ilusão de algo que alguém nos garante que é um amor verdadeiro, assim como Malévola, e são despertadas desse doce sonho com uma dor dilacerante e confusas, sem entender o que está acontecendo… até que entendem?

Às vezes somos tomadas por uma dor que transpassa o corpo físico e se aloja na alma. Uma dor tão poderosa a ponto de mudar a nossa natureza, a nossa personalidade, o nosso modo de ver e viver o mundo e a vida, e o amor. Assim como acontece com Malévola.

Malévola permite que o ódio e a revolta a dominem, se tornando uma ditadora em seu reino e uma figura sombria que inspirava medo em todos os seres. Quando nasce a filha do agora Rei Stefan, ela lança uma maldição na menina, condenando-a a um sono profundo que só poderia cessar com um beijo de amor verdadeiro, que ela já não acreditava existir.

Stefan manda a menina Aurora para bem longe, para ser criada por três fadas atrapalhadas. Mas algo que ninguém esperava, nem mesmo a própria Malévola, era que ela fosse se afeiçoar profundamente pela menina, criando ela como se fosse sua filha.

Quando a menina completa 16 anos, a maldição toma efeito e Malévola não consegue impedir ou reverter a situação da jovem. Arrependida, ela jura proteger a menina enquanto viver e se despede dando um beijo em sua bochecha. Inesperadamente, a jovem Aurora desperta, mostrando que o amor que a fada tem pela jovem é um real amor verdadeiro.

Em seguida, ao enfrentar a fonte da sua dor, Rei Stefan, Aurora devolve as asas da Malévola, que haviam sido encarceradas por ele após ter decepado elas do corpo da fada, e a batalha acaba na morte de Stefan.

Quando somos machucadas por alguém a ponto de nos transformarmos em algo sombrio, é preciso luz. Em cada um de nós, homens e mulheres, há forças sombrias e luminosas atuando no nosso dia a dia, transformando a nossa identidade continuamente.

Stefan e Malévola deixaram as sombras tomarem conta deles. Então, quando essas forças se desequilibram e assumimos a forma de apenas uma delas, perdemos de vista a nossa totalidade. Afinal, somos muito mais do que luz ou sombras. Somos luz e sombras. E Aurora mostra isso à fada, ou pelo menos tenta.

No segundo filme, Malévola, que ainda não havia reaprendido a confiar nos seres humanos, se encontra novamente em um embate com o reino de Ulstead. Após um mal entendido que havia ocorrido entre ela e Aurora, Malévola descobre que sua linhagem descende da Fênix, um ser que originou os seres mágicos.

Quando se dirige a um embate com o reino de Ulstead, cega de ódio pela rainha que estava decidida a eliminar todos os seres mágicos do mundo, Malévola a enfrenta com intenção de matá-la, até que é impedida por Aurora.

O mal entendido já havia sido esclarecido, então Aurora só desejava que Malévola percebesse que ela, na verdade, não era um ser de morte e vingança e, sim, um ser bondoso e afetuoso, como ela havia sido com Aurora desde que ela nasceu. Ela diz algo parecido com “essa não é você” e, depois de Malévola argumentar que Aurora não sabe quem ela é, a jovem diz: “eu sei sim, você é a minha mãe”.

Nesse momento, Malévola parece perceber o que Aurora queria transmitir, possivelmente lembrando de como ela era antes de Stefan ter mutilado o seu corpo e a sua alma. Porém, a rainha de Ulstead já estava mirando uma flecha mortal na jovem e Malévola a protege com sua própria vida, se tornando cinzas. Muito entristecida pela morte da fada, Aurora chora, derrubando suas lágrimas sobre as cinzas de Malévola.

Felizmente, (eu já estava quase saindo do cinema de tão inconformada que eu estava com isso), alguns instantes depois, as lágrimas derramadas por Aurora começam a brilhar e, então, Malévola renasce na forma de uma Fênix.

Ter as nossas asas de volta nem sempre é suficiente. Se a ferida é forte e profunda à ponto de roubar a nossa identidade, é preciso curar não apenas a ferida, como acontece quando Malévola retoma suas asas. É preciso restaurar o caos por baixo da ferida, curar
o organismo como um todo, corpo e alma. Esse processo jamais poderá nos fazer voltar à forma que tínhamos, afinal, o que vivemos jamais será completamente esquecido ou sublimado. E nem deve, pois isso nos afastaria ainda mais de quem somos, uma vez que o nosso passado também constitui a nossa identidade.

Além disso, essa cura requer um trabalho muito complexo e que acaba por ser tão doloroso que algo em nós de fato morre, como ocorre com Malévola. Seu corpo morreu, mas sua real identidade não. Ela ainda era descendente da Fênix e, como a própria, ela renasce das suas cinzas sob uma forma completamente diferente. E é isso o que precisamos fazer.

O que deve morrer é a nossa forma cristalizada, tomada pela escuridão, e o que deve renascer é uma forma integrada: nem luz e nem sombra, nem bom e nem ruim, nem passado e nem presente. Malévola, antes de conhecer Stefan, era puramente bondade e, depois, puramente maldade.

Depois de se permitir morrer, a fada ressurge sob uma forma mais integrada e equilibrada e, consequentemente, potente. Com suas asas e dona de si, apossada do seu passado e não mais o contrário, não mais tomada pela sua ferida, ela consegue também
integrar os seres vivos entre si, unindo humanos e seres mágicos.

Gostaria que você percebesse que Malévola, nessa perspectiva, pode ser vista como um símbolo e uma inspiração para a transformação e o seu renascimento, assim como a Fênix. Precisamos deixar de lado a identidade que criamos a partir da dor e assumir a nossa real identidade, que é dor, amor, desespero, esperança, alegria, tristeza, TUDO junto e muito mais. Se a sua dor transformou a sua identidade a ponto de você não se reconhecer mais, saiba que você não está lascada, perdida. Você tem jeito de ser diferente, mas, para isso, é necessário se permitir transformar e renascer.

Então, fica aqui o meu profundo desejo de que você faça como Malévola. Desejo que você tenha a coragem de permitir a morte dessa sua versão que é dominada pela dor, pelo trauma, pelo passado, para que você ressurja das suas cinzas como a mulher que você merece ser: dona de si.

Escrito por: Ariadne Lecher Possibom
Psicóloga (CRP 06/129793) formada pela FMU em 2015, especialista e aprimorada em Psicologia Hospitalar pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (IOT – HCFMUSP), e Gestalt Terapeuta em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae.
Crédito Imagem:Metrô News

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